Um sobre Zero #20

Olá, eu sou o António Lopes e esta é a newsletter do Um sobre Zero, um podcast sobre o futuro da ciência e tecnologia.

Estou de volta de férias e também de volta ao trabalho no Um sobre Zero, seja no podcast a preparar os episódios que virão nas próximas semanas, seja na newsletter a dar conta do que se vai passando no mundo da ciência e tecnologia.

Para entrar no fim de semana de bom humor

Os bons testers encontram sempre aquele caso especial que rebenta o sistema

Anteriormente... no Um sobre Zero

O mundo aos poucos vai avançando no uso de fontes de energia mais sustentáveis (até é bom ver que **finalmente**, a gasolina com chumbo já não existe mais no Planeta Terra e que há empresas a procurar alternativas... bem diferentes). E isso vai-se notando principalmente na mudança para carros elétricos.

E agora chegou a minha vez.

Pois é, agora já sou o feliz dono de um Nissan Leaf. Não é de facto o carro mais bonito (eu sei) mas é bastante económico e exatamente aquilo que se adapta à minha rotina dos dias que correm.

E o que me levou finalmente a dar o salto para os carros elétricos? Foi a minha conversa com o Pedro Pinheiro no episódio 47 do Um sobre Zero. Se ainda estão indecisos ou se simplesmente querem perceber exatamente os pontos que devem ter em conta se faz sentido ou não mudarem para um carro elétrico, este episódio é um excelente ponto de partida.

De qualquer forma, estou disponível para partilhar a minha experiência, por isso se precisarem é só contactarem-me.

Right-to-Repair está na ordem do dia

No episódio 2 do Um sobre Zero falámos um pouco sobre esta temática do direito a cada pessoa poder reparar os seus próprios dispositivos. Na altura (há mais de um ano), já tínhamos pintado um cenário pouco simpático do estado em que a sociedade está, em que o incentivo está sempre na compra de aparelhos novos, em vez de tentar reparar os atuais.

Seja porque os fabricantes fazem de propósito para ser difícil reparar (intencionalmente criando dispositivos com técnicas que tornam muito difícil a troca e reparação de componentes internos) ou seja pelo lobby da indústria que tenta forçar legislação que impeça as pessoas de mexerem nos aparelhos sob a bandeira da "segurança".

Mas parece que agora a nova administração nos EUA, sob o comando do Joe Biden, decidiu que o right-to-repair é uma luta que vale a pena apostar. O curioso é que parece que a motivação para esta luta veio de uma área que poucos esperavam: as máquinas de gelados do McDonald's.

Pois é, o facto de serem máquinas muito difíceis de reparar (o que faz com que obriguem as várias cadeias do restaurante de fast-food a usar apenas o suporte do fabricante) faz com que as mesmas sejam notórias por estarem sempre avariadas. E isto motivou a empresa a lançar um caso em tribunal contra a empresa fabricante, o que acabou por chamar a atenção da Federal Trade Commission que está agora a pensar usar este caso como uma forma de criar uma base para a luta do right-to-repair.

Não era por aqui que eu achava que ia avançar esta luta, mas hey... como diz o outro, aproveitamos as vitórias que conseguimos.

O poder da Pornografia

Durante o mês de agosto tivemos, mais uma vez, uma amostra de como a pornografia é realmente poderosa e pode mover o mundo da tecnologia. Antes que digam que não, lembrem-se que foi a indústria da pornografia que decidiu o destino de muitas tecnologias, como por exemplo quando decidiu que VHS era o caminho (e não betamax) e que, mais tarde, Blu-ray era a opção a seguir (em vez do HD-DVD).

E desta vez, foi uma plataforma de criadores de conteúdos, OnlyFans, que se rendeu à evidência. Um pequeno resumo da história:

  • A 19 de agosto, a empresa anunciou que ia banir todo o conteúdo pornográfico da sua plataforma, usando como argumento a inclusão de todo o tipo de criadores de conteúdos e utilizadores e não apenas a indústria pornográfica.

  • Mas a verdade era outra, o que aconteceu é que a empresa viu-se numa situação complicada em que as plataformas de pagamentos começaram a introduzir regulamentação que no fundo incentiva à recusa de processamento de pagamentos ligados à indústria de conteúdos para adultos. E portanto, a decisão foi a de abandonar os conteúdos pornográficos na plataforma.

  • Naturalmente, sendo que 90% dos conteúdos criados na plataforma são efetivamente para adultos, a empresa viu-se numa situação em que se esta decisão fosse mesmo para a frente, o mais natural era desaparecer.

  • E passados apenas 6 dias, decidiu reverter a decisão. A pergunta agora fica: mas então e o problema dos pagamentos? Bem, para já, a empresa só afirma que "conseguiu assegurar o suporte necessário para todos os criadores", seja lá o que isso significa

Tesla Bot

Lá pelo meio de uma apresentação brutal da tecnologia de Inteligência Artificial da Tesla, em que mostraram os detalhes todos de como a equipa desenvolveu a tecnologia de carros autónomos (uma delícia para os investigadores da área), o Elon Musk decidiu anunciar que a Tesla está a trabalhar num robot-humanóide, o Tesla Bot.

O objetivo do Tesla Bot é realizar "tarefas que sejam perigosas, repetitivas ou simplesmente enfadonhas", ou seja, coisas que os humanos preferiam evitar.

Mas com a típica sede do Elon Musk em anunciar as coisas muito tempo antes delas serem uma realidade, o Tesla Bot é ainda escasso em termos de detalhes, e protótipo só algures para o ano que vem. E como se não bastasse, o Musk ainda teve o mau gosto de por uma pessoa vestida com um fato semelhante ao do Tesla Bot, e a andar de um lado para o outro a fingir que era um robot... até ao momento em que começa a dançar!

Ainda que reconheça os incríveis avanços que a Tesla tem feito ao nível dos carros autónomos, a verdade é que um robot humanóide para executar tarefas mundanas ao nível do que fazem os humanos, é algo que é mesmo muito difícil de concretizar.

A Boston Dynamics, conhecida por mostrar aqueles vídeos divertidos de como os robots deles conseguem fazer coisas incríveis, também são rápidos a revelar que são máquinas altamente especializadas e temperamentais e que é muito difícil pô-las a fazer tarefas ligeiramente genéricas e que exigem algum tipo de autonomia mais avançada. E eles estão a trabalhar nisto há décadas.

Portanto, isto cheira-me a mais um sonho húmido do Elon Musk, do que um projeto sério que consiga efetivamente dar frutos nos próximos 5 anos.

Facebook Metaverse

E por falar em sonhos húmidos de CEOs de Big Tech, é claro que eu não podia deixar passar esta história: a grande iniciativa do Mark Zuckerberg em criar o Metaverse, o mundo de realidade virtual criado pela empresa de tecnologia mais odiada no mundo inteiro.

Pronto, estou a ser duro com o Zuckerberg, mas eu de facto não sou adepto do rapaz e da sua visão para o mundo. Assim como não partilho muito da ideia de que precisamos da imersão da realidade virtual que ele tanta ambiciona, principalmente se isso significar andar com aqueles óculos pesados e demasiado grandes. Eu sou mais adepto de realidade aumentada, fornecida por aparelhos bastante mais naturais (como uns óculos como já normalmente uso), que permita enriquecer a experiência da realidade que nos rodeia e não a substituir por reuniões com avatars mal amanhados.

Mas pronto, como em muitas destas iniciativas, temos de esperar para ver o que aí virá. Até pode ser que me engane e que este tipo de abordagem até pode trazer experiências bem interessantes. Eu acho é que o Zuckerberg fazia bem em começar a trazer a malta da pornografia para esta iniciativa. Ouvi dizer que é essa indústria que decide quem é que segue em frente.

Recomendações de leituras para o fim de semana

San Francisco Chronicle - The Jessica Simulation: Love and loss in the age of AI

Não faço ideia se esta história é verdade ou se há muita fantasia por aqui, mas é de qualquer forma, uma vertente interessante de pensar se queremos um futuro em que conseguimos reproduzir através de um bot, ainda que de forma rudimentar, as pessoas que perdemos. Isso será melhor ou pior para o luto?

Recomendações de podcasts para o fim de semana

The Ezra Klein Show - 41 Questions For The Technologies We Use, and That Use Us

Muito bom este episódio, não porque seja bom a dar respostas mas porque é bom a trazer à superfície perguntas muito interessantes sobre o mundo da tecnologia que nos rodeia. Recomendado.

Brevemente... no Um sobre Zero

Por enquanto, ainda estou a preparar os episódios que aí virão. Nada a anunciar ainda.

Nota final

Deixo-vos aqui um site engraçado e deprimente ao mesmo tempo, porque revela bem o que é a experiência atual a navegar na maioria dos sites na internet:

https://how-i-experience-web-today.com

Bom fim de semana